Objetivo
Demonstrar o desvio de um asteroide por impacto cinético, alterando o movimento de Dimorphos em torno de Didymos. Nenhum dos dois asteroides representava ameaça à Terra.
Resultado
O impacto encurtou a órbita de Dimorphos de 11 h 55 min para cerca de 11 h 23 min, com refinamento posterior para 33 min 15 s a menos. O limite mínimo de sucesso, de 73 segundos, foi superado em mais de 25 vezes.
Contexto
Asteroides que cruzam a vizinhança da Terra são monitorados há décadas, e a pergunta prática que restava era simples: se um deles um dia estivesse em rota de risco, seria possível mudar seu caminho? A NASA respondeu com a missão DART (sigla em inglês para Teste de Redirecionamento de Asteroide Duplo), descrita pela agência como a primeira missão dedicada a investigar e demonstrar um método de desvio: mudar o movimento de um asteroide por meio de um impacto cinético, isto é, uma colisão de uma nave com o corpo.
O alvo foi escolhido por ser um sistema binário. Didymos, o corpo principal, tem cerca de 780 metros de diâmetro. Dimorphos, a pequena lua que o orbita, tinha 160 metros segundo a NASA em 2022, valor que a ESA hoje apresenta como cerca de 151 metros. Em um sistema assim, a mudança no tempo da órbita da lua pode ser medida da Terra com telescópios, o que torna o resultado verificável. Nenhum dos dois asteroides representava ameaça ao planeta, e o experimento não alterou isso.
A missão e o lançamento
A sonda foi construída e operada pelo Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins (APL) para o Escritório de Coordenação de Defesa Planetária da NASA. Era uma nave em forma de caixa, com cerca de 570 quilos (1.260 libras). O lançamento ocorreu às 22h21 no horário do Pacífico de 23 de novembro de 2021, o que equivale a 1h21 no horário do leste dos EUA de 24 de novembro, em um foguete Falcon 9 da SpaceX, a partir da Base Espacial de Vandenberg, na Califórnia.
A câmera DRACO (Didymos Reconnaissance and Asteroid Camera for Optical navigation) fazia a navegação óptica da sonda. Um sistema de orientação autônoma, chamado SMART Nav, ajudava a distinguir os dois asteroides e a mirar o menor. A Agência Espacial Italiana forneceu o LICIACube, um cubesat que se separou da sonda 15 dias antes do impacto para registrar a colisão e a nuvem de detritos.
O impacto de 26 de setembro de 2022
A colisão ocorreu às 19h14 no horário de verão do leste dos EUA (EDT) de 26 de setembro de 2022, o que corresponde a 23h14 UTC. A NASA informa que os asteroides estavam a menos de 11 milhões de quilômetros da Terra. A velocidade de impacto foi de cerca de 22.530 quilômetros por hora, segundo a agência; a ESA cita 6,1 quilômetros por segundo, valor próximo, mas que não é idêntico ao convertido da cifra da NASA.
As últimas imagens da DRACO mostram a aproximação em etapas. Cerca de 2,5 minutos antes do choque, a 920 quilômetros, ainda aparecem os dois asteroides. Onze segundos antes, a 68 quilômetros, Dimorphos ocupa o campo de visão inteiro. Dois segundos antes, a cerca de 12 quilômetros, a câmera enxergava um trecho de aproximadamente 31 metros. A última imagem, a cerca de 6 quilômetros, foi cortada porque o impacto ocorreu durante a transmissão.
O que os telescópios mediram
O critério de sucesso fixado pela NASA antes do encontro era modesto: uma mudança de pelo menos 73 segundos no período orbital de Dimorphos. Os dados iniciais indicaram que o período caiu de 11 horas e 55 minutos para cerca de 11 horas e 23 minutos, uma redução de 32 minutos, com incerteza de mais ou menos 2 minutos. Isso superou o mínimo em mais de 25 vezes.
As observações vieram de radar e telescópios em vários lugares, entre eles o radar de Goldstone, o Observatório de Green Bank, o telescópio Swope, o Telescópio Dinamarquês e a rede Las Cumbres. Uma análise posterior, publicada em 19 de março de 2024 na Planetary Science Journal, refinou o número: o período final ficou em 11 horas, 22 minutos e 3 segundos, isto é, 33 minutos e 15 segundos mais curto que o original.
Forma, composição e o efeito dos detritos
Esse mesmo estudo indicou que Dimorphos mudou de forma. Antes do impacto, era um esferoide achatado, comparável a uma bola amassada. Depois, passou a se aproximar de um elipsoide triaxial, que a NASA compara a uma melancia alongada. A análise sugere ainda que a lua é um monte de escombros, formado por material solto, de forma semelhante ao asteroide Bennu, com base nos detritos observados e na evolução da órbita.
Os detritos lançados pela colisão importam para o cálculo do desvio, porque o material ejetado empurra o corpo no sentido oposto e amplia o efeito do choque direto. Um trabalho publicado em 6 de março de 2026 na Science Advances, divulgado pela NASA, estimou um fator de ampliação de momento de cerca de 2 para esse impacto. Isso significa que os detritos teriam praticamente dobrado a contribuição do impacto direto, conforme o estudo.
Uma mudança na órbita em torno do Sol
O mesmo estudo de 2026 relatou que o impacto alterou o período de Didymos ao redor do Sol em 0,15 segundo. A variação na velocidade orbital do sistema binário foi de cerca de 11,7 micrômetros por segundo, algo como 1,7 polegada por hora. A NASA considera essa a primeira vez em que um objeto feito por humanos alterou de forma mensurável o trajeto de um corpo celeste em torno do Sol.
O número é minúsculo, e é justamente por isso que a defesa planetária depende de antecedência. Uma pequena mudança de velocidade, aplicada muitos anos antes de um possível encontro com a Terra, se acumula em uma diferença grande de posição. A própria NASA ressalta, ao comentar o estudo, a importância de detectar cedo os objetos perigosos, tarefa ligada à futura missão NEO Surveyor.
Hera e o acompanhamento europeu
A ESA lançou a missão Hera em 7 de outubro de 2024, em um Falcon 9, com o objetivo de estudar o sistema Didymos depois do impacto. A nave deve mapear toda a superfície de Dimorphos com resolução de metros e a região da cratera com resolução abaixo de 10 centímetros, além de medir a massa da lua com incerteza inferior a 10%. Uma medida de massa é essencial para converter o resultado do DART em uma técnica repetível.
Segundo a ESA em comunicado de 7 de outubro de 2025, a chegada a Didymos está prevista para novembro de 2026, um mês antes do plano original, graças a uma trajetória de frenagem mais tardia. Por ser uma data prevista, ela pode mudar, e o andamento deve ser conferido nos canais da agência.
Limites e o que não se sabe
O DART provou que o método funciona em um alvo do tamanho de Dimorphos, mas cada asteroide tem estrutura e composição próprias. Os resultados dependem, por exemplo, de se o corpo é um monte de escombros ou uma rocha coesa, e o tamanho da cratera aberta em Dimorphos ainda é estimado na escala de 20 metros, segundo a ESA. Os números da missão também foram sendo refinados com o tempo, como mostram as diferenças entre as estimativas de 2022 e de 2024 para o período orbital, e entre as fontes quanto ao diâmetro de Dimorphos e à velocidade de impacto.
Por essas razões, os dados de Hera serão decisivos. O DART não é uma solução pronta para qualquer ameaça, e sim a primeira medição real de um método que, até então, existia apenas em modelos.
Fontes consultadas
- NASA Confirms DART Mission Impact Changed Asteroid's Motion in Space — NASAFonte oficial
- NASA Study: Asteroid's Orbit, Shape Changed After DART Impact — NASAFonte oficial
- NASA's DART Mission Changed Orbit of Asteroid Didymos Around Sun — NASAFonte oficial
- DART — NASA ScienceFonte oficial
- DART's Final Images Prior to Impact — NASAFonte oficial
- Didymos and Dimorphos — ESAFonte oficial
- ESA's Hera targets early arrival at Didymos asteroids — ESAFonte oficial
- Bullseye! NASA's DART Mission Impacts Asteroid Target in World First — Johns Hopkins APLComplementar
Fontes conferidas em 29 de setembro de 2026. Encontrou um erro? Escreva para [email protected] ou consulte a página de correções.

