Objetivo
Desenvolver conjuntamente satélites de observação da Terra para monitorar recursos naturais, em um modelo de cooperação entre dois países em desenvolvimento.
Resultado
O CBERS-1 foi lançado por um foguete Longa Marcha 4B em 14 de outubro de 1999, do Centro de Lançamento de Taiyuan, na China, e passou a integrar o sistema de coleta de dados do INPE.
Contexto: dois países em desenvolvimento e uma aposta comum
No fim da década de 1980, o Brasil já projetava seus primeiros satélites de coleta de dados no âmbito da MECB, mas a parte de sensoriamento remoto da missão, com câmeras para observar a superfície terrestre, exigia investimentos e tecnologias que o país não reunia sozinho. A China, por sua vez, desenvolvia a série de satélites de recursos terrestres ZY-1. A convergência de necessidades levou os dois governos a buscar uma parceria.
Um folheto do INPE, publicado antes do lançamento do primeiro satélite, informa que o programa cooperativo foi assinado em 6 de julho de 1988 entre a China e o Brasil para desenvolver dois satélites de observação da Terra. Segundo o mesmo documento, o CBERS reúne recursos financeiros e mão de obra qualificada dos dois países para estabelecer um sistema completo de sensoriamento remoto, e foi concebido como modelo de cooperação horizontal e de intercâmbio tecnológico entre países em desenvolvimento.
O site oficial do CBERS, mantido pelo INPE, e a página da Administração Espacial Nacional da China sobre o ZY-1 confirmam o ano de 1988 para o acordo. A página chinesa acrescenta que, de acordo com o entendimento firmado naquele ano entre os governos, o satélite sino-brasileiro seria desenvolvido a partir do ZY-1.
O satélite e seus instrumentos
O CBERS foi pensado como um satélite multissensor, com instrumentos de resoluções espaciais e frequências de observação diferentes. O folheto do INPE cita três câmeras: um imageador de campo largo (WFI), com faixa de imageamento de 900 quilômetros e capacidade de cobrir a superfície terrestre em menos de cinco dias; uma câmera CCD de alta resolução; e um imageador multiespectral no infravermelho (IR-MSS). As duas últimas observam faixas mais estreitas, de 120 quilômetros, com mais detalhe.
A câmera CCD podia ainda apontar lateralmente, com ângulo de mais ou menos 32 graus, o que aumentava a frequência de observação de uma área e permitia visão estereoscópica. Além dos imageadores, o satélite levava um sistema de coleta de dados para retransmitir informações ambientais medidas em solo, um monitor do ambiente espacial para detectar radiação de alta energia e um gravador experimental de fita de alta densidade.
Quanto à órbita, tanto o folheto do INPE quanto a página da CNSA indicam órbita heliossíncrona a cerca de 778 quilômetros de altitude e inclinação próxima de 98,5 graus, com período de aproximadamente 100 minutos. Os dois documentos divergem em alguns valores, como a massa do satélite, que aparece como 1.400 quilos no folheto e 1.450 quilos para o ZY-1 na página chinesa, e o horário local de passagem. Por isso, esses dois dados não são apresentados aqui como definitivos.
O lançamento do CBERS-1
O CBERS-1 foi lançado em 14 de outubro de 1999, por um foguete Longa Marcha 4B, do Centro de Lançamento de Taiyuan, na China. A data consta da página da CNSA sobre o ZY-1, que descreve o lançamento bem-sucedido nessa data, e a linha do tempo do INPE registra o lançamento de 1999 a partir do mesmo centro chinês. As fontes consultadas não informam o horário exato do lançamento.
O acordo previa que os satélites seriam lançados por foguetes chineses da série Longa Marcha, como informa o folheto. Essa escolha contrastava com o SCD-1, lançado seis anos antes por um foguete norte-americano Pegasus, e mostrava que o Brasil, sem lançador próprio, precisava recorrer a parceiros para levar seus satélites à órbita.
Depois do lançamento, o satélite passou a integrar o Sistema Brasileiro de Coleta de Dados. Em 2003, o INPE informava que, além do pioneiro SCD-1, o sistema contava com o SCD-2 e o CBERS-1, todos retransmitindo dados ambientais de plataformas espalhadas pelo território nacional.
Desdobramentos do programa
A parceria não terminou com o primeiro satélite. A linha do tempo do INPE registra o lançamento do CBERS-2 em 2003, também de Taiyuan, a assinatura, em 2002, de um novo acordo para o desenvolvimento do CBERS-3 e do CBERS-4, o lançamento do CBERS-2B em 2007 e o fim do ciclo de vida do CBERS-2 em 2009, depois de mais de cinco anos em órbita.
Um dos efeitos mais notáveis do programa foi a política de dados abertos. O INPE liberou um catálogo gratuito de imagens do CBERS na internet em 2004 e, em 2005, informou ter chegado a 100 mil imagens distribuídas, tornando-se o maior distribuidor de imagens dessa classe do mundo, segundo o próprio instituto. Em 2006 o catálogo gratuito foi estendido à América do Sul.
O programa também conheceu um revés. Em dezembro de 2013, uma falha na terceira etapa do lançador impediu que o CBERS-3 fosse colocado em órbita, conforme o INPE. Já o lançamento do CBERS-4 estava programado, na página do instituto, para 7 de dezembro de 2014, data que marcaria 26 anos de cooperação entre os dois países.
Balanço e o que não foi confirmado
O CBERS deu ao Brasil acesso a imagens de sua própria região em escala continental e ajudou a formar um mercado de dados de satélite no país. O programa também serviu de ponte para a etapa seguinte da política espacial brasileira: a revista Pesquisa FAPESP o cita entre os marcos de 1988, ao lado do início do sistema de monitoramento do desmatamento da Amazônia.
Não foi possível confirmar, nas fontes abertas consultadas, a divisão exata dos custos e das responsabilidades técnicas entre os dois países no CBERS-1, nem o horário do lançamento. Por isso, esses pontos não aparecem no texto. O leitor deve considerar também que os dados técnicos citados provêm de um folheto anterior ao lançamento e de uma página da CNSA sobre o satélite chinês que serviu de base, e não de uma ficha final do CBERS-1.
Fontes consultadas
- CBERS - Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (linha do tempo) — Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)Fonte oficial
- China - Brazil Earth Resources Satellites (CBERS), folheto do programa — Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)Fonte oficial
- ZY-1 earth resource satellite — Administração Espacial Nacional da China (CNSA)Fonte oficial
- 1º Satélite de Coleta de Dados - SCD-1: Histórico — Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)Fonte oficial
- Instituto se destaca pelo pioneirismo — Revista Pesquisa FAPESPComplementar
Fontes conferidas em 29 de setembro de 2026. Encontrou um erro? Escreva para [email protected] ou consulte a página de correções.