Objetivo
Projetar e desenvolver quatro satélites artificiais, um veículo lançador e toda a infraestrutura de solo, incluindo uma base de lançamentos, para que o Brasil dominasse o ciclo espacial completo.
Resultado
O INPE construiu a infraestrutura de solo e lançou o SCD-1 em 1993 e o SCD-2 em 1998. O lançador, sob responsabilidade do CTA, seguiu trajetória separada e marcada por dificuldades.
Contexto: um programa espacial dividido entre civis e militares
Quando o governo federal aprovou a Missão Espacial Completa Brasileira, em 1979, o país já tinha quase duas décadas de atividade espacial organizada. O GOCNAE fora criado em 1961, o INPE em 1971 e a base de lançamentos da Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte, funcionava desde 1965. Faltava, porém, um projeto que ligasse todas as peças, do satélite ao foguete e à base de onde ele partiria.
A criação da Comissão Brasileira de Atividades Espaciais (COBAE), em 1971, ligada ao Estado-Maior das Forças Armadas, havia colocado o INPE na posição de executor de decisões tomadas fora dele. A revista Pesquisa FAPESP registra que esse arranjo gerou uma polarização entre militares e civis de efeitos duradouros. A MECB nasceu desse ambiente e o refletiu em sua própria divisão de responsabilidades.
O nome já dizia a ambição. Completa significava não depender de terceiros em nenhuma etapa: projetar e construir os satélites, desenvolver o veículo que os levaria à órbita e dispor de um centro de lançamento próprio, além dos meios de rastreio e controle em terra.
O que a missão previa
Segundo o histórico publicado pelo INPE, a MECB consistia no projeto e desenvolvimento de quatro satélites artificiais, do veículo lançador e de toda a infraestrutura de solo, na qual se incluía uma base de lançamentos. Coube ao INPE a responsabilidade pelos quatro satélites, sendo dois de coleta de dados e dois de sensoriamento remoto, bem como pela infraestrutura de solo para a operação em órbita.
A linha do tempo do programa CBERS, também mantida pelo INPE, descreve a divisão de tarefas com o mesmo desenho. O instituto, então vinculado ao ministério responsável pela ciência e tecnologia, desenvolveria os satélites de coleta de dados e de sensoriamento remoto. O Centro Técnico Aeroespacial, ligado ao Ministério da Defesa, desenvolveria o veículo lançador de satélites e providenciaria o estabelecimento de um centro de lançamento brasileiro.
Os satélites de coleta de dados, hoje conhecidos pela sigla SCD, deveriam pesar cerca de 100 quilos e operar em órbita baixa, retransmitindo dados ambientais coletados por plataformas automáticas espalhadas pelo território. Os de sensoriamento remoto, de cerca de 150 quilos, teriam órbita polar. Esses números aparecem na página histórica do INPE como características previstas no desenho original da missão.
Infraestrutura: laboratórios e centro de controle
Para cumprir sua parte, o INPE precisou construir laboratórios que não existiam no país. O Laboratório de Integração e Testes (LIT), em São José dos Campos, foi projetado especialmente para as necessidades da MECB. A linha do tempo do CBERS informa que os investimentos em infraestrutura começaram em 1982, que o LIT foi construído entre 1983 e 1987 e que entrou em operação em 1987.
O INPE descreve o LIT como um dos mais avançados complexos de laboratórios de pesquisa e desenvolvimento em tecnologia espacial do hemisfério sul, e foi nele que o SCD-1 foi integrado e testado. Ao longo dos anos o laboratório passou a atender também clientes externos: a mesma linha do tempo informa que, em 2005, ele alcançou a marca de mil clientes.
A operação em órbita exigia ainda um Centro de Rastreio e Controle de Satélites. Ele foi construído entre 1987 e 1989, conforme a linha do tempo do CBERS, e é composto pelo Centro de Controle de Satélites, em São José dos Campos, e por estações terrenas em Cuiabá (MT) e em Alcântara (MA), de acordo com o histórico do SCD-1.
O lançador e o centro de lançamento
A parte da missão entregue ao Centro Técnico Aeroespacial incluía o veículo lançador de satélites e a base de onde ele partiria. O Ministério da Defesa registra o Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, em 1983, na sequência do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, em Natal, de 1965. Alcântara fica a cerca de 2,3 graus ao sul do Equador, uma posição que o próprio ministério cita como vantajosa para lançamentos.
O desenvolvimento do lançador seguiu, porém, um caminho mais difícil que o dos satélites. Um documento da Agência Espacial Brasileira sobre a prestação de contas de 2005 mostra que a construção e o ensaio de protótipos do VLS-1 e de um veículo menor, o VLM, continuavam em curso mais de duas décadas depois da aprovação da missão. O acidente de 22 de agosto de 2003 com o protótipo VLS-1 V03, tratado em outro texto deste acervo, foi o episódio mais grave dessa trajetória.
Resultados: SCD-1, SCD-2 e a base para o CBERS
O primeiro fruto visível da MECB foi o SCD-1, lançado em 9 de fevereiro de 1993 a partir dos Estados Unidos, por um foguete Pegasus. Segundo o INPE, foi o primeiro satélite totalmente projetado, construído, testado e operado no Brasil, e a primeira aplicação prática do LIT. A linha do tempo do CBERS registra o SCD-2 em 1998, também lançado da Flórida.
Os dois satélites deram origem ao Sistema Brasileiro de Coleta de Dados, cujos dados servem à previsão do tempo, ao monitoramento de rios e reservatórios e a outras aplicações ambientais. Em 2003, o INPE informava que o sistema contava com mais de 500 plataformas e mais de 80 instituições usuárias, e que o CBERS-1 já integrava a rede ao lado do SCD-1 e do SCD-2.
Os dois satélites de sensoriamento remoto previstos na MECB tomaram outro rumo. Em 1988, o Brasil assinou com a China o acordo do programa CBERS, e as capacidades desenvolvidas para a missão, como o LIT, foram aplicadas a satélites construídos em cooperação internacional. A revista Pesquisa FAPESP destaca também que o INPE adotou, no fim dos anos 1980, uma política industrial que criou uma base de fornecedores na área de satélites.
Balanço e limites
A MECB é lembrada como o projeto que deu ao país a competência de projetar e integrar satélites, e essa é a leitura oficial do INPE, para quem o lançamento do SCD-1 marcou a entrada definitiva do Brasil nos domínios da tecnologia espacial. Ela também revela o custo de um programa dividido: o satélite ficou pronto e operou, mas o lançador e o centro de lançamento evoluíram em ritmo e sob condições distintas.
Este texto não detalha custos, cronogramas originais nem os nomes de dirigentes e de empresas envolvidos, porque esses dados não foram confirmados nas fontes abertas consultadas. O leitor interessado deve consultar as páginas do INPE e os documentos de prestação de contas da AEB, que permitem acompanhar a evolução do programa ano a ano.
Fontes consultadas
- 1º Satélite de Coleta de Dados - SCD-1: Histórico — Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)Fonte oficial
- CBERS - Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (linha do tempo) — Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)Fonte oficial
- História — Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)Fonte oficial
- O Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE) — Ministério da DefesaFonte oficial
- Instituto se destaca pelo pioneirismo — Revista Pesquisa FAPESPComplementar
Fontes conferidas em 29 de setembro de 2026. Encontrou um erro? Escreva para [email protected] ou consulte a página de correções.
