Objetivo
Desenvolver um míssil balístico de longo alcance para uso militar. A chegada ao espaço foi um efeito dos voos de teste verticais, não uma meta científica declarada.
Resultado
O V-2 cruzou a linha convencional do espaço em voos de teste e serviu de base para os programas de foguetes dos Estados Unidos e da União Soviética, depois da guerra. Sua produção e uso causaram milhares de mortes.
Contexto: de foguetes experimentais a míssil de guerra
O V-2, conhecido tecnicamente como A-4, foi o resultado de mais de uma década de experimentos alemães com foguetes de combustível líquido. Segundo o Museu Nacional do Ar e do Espaço, os primeiros testes com os modelos A-1 e A-2 ocorreram entre 1932 e 1934, e em dezembro de 1934 dois A-2 foram lançados com sucesso na ilha de Borkum. Entre 1935 e 1937, o grupo trabalhou no A-3 e, em 1936, propôs o A-4, uma ampliação para cerca de 25 toneladas métricas. Em abril de 1937, a equipe de foguetes mudou-se para o centro de Peenemünde, no litoral báltico.
Na chefia técnica estava Wernher von Braun, que, segundo a NASA, começou a trabalhar para o exército alemão no fim de 1932 em mísseis de combustível líquido e obteve o doutorado em física em 1934. A liderança militar do programa coube ao capitão, depois general, Walter Dornberger. O A-4 foi concebido como arma, e a origem militar do programa é indissociável da história do foguete.
O foguete
O museu descreve o V-2 como um míssil com cerca de 14 metros de altura, quase 13 toneladas de massa de lançamento, alcance de quase 300 quilômetros e voo de cerca de cinco minutos. O exemplar do acervo mede 46 pés de comprimento e 5 pés e 5 polegadas de diâmetro, e o museu informa que o combustível era uma mistura de aproximadamente 75% de álcool e 25% de água, com oxigênio líquido como oxidante. A ogiva levava cerca de uma tonelada de explosivo.
O primeiro A-4 bem-sucedido foi lançado em 3 de outubro de 1942, segundo o museu, e alcançou cerca de 60 milhas de altitude. O centro de propulsão do DLR, agência aeroespacial alemã, descreve o A-4 como o primeiro grande foguete do mundo e diz que ele chegou perto de 100 quilômetros em 1942. A NASA e outros textos resumem o feito como um lançamento bem-sucedido de outubro de 1942.
A chegada ao espaço
O museu afirma que o V-2 foi o primeiro objeto feito por humanos a chegar ao espaço, durante lançamentos de teste alemães em 1943 e 1944. O Guinness World Records registra o marco em um voo de teste de 20 de junho de 1944, com 174,6 quilômetros de altitude, acima da linha de Kármán, situada por convenção a 100 quilômetros. Compilações mais recentes citam cerca de 176 quilômetros para o mesmo voo, mas essa altitude e a data exata não constam das fontes oficiais consultadas, e por isso o texto trata o dia 20 de junho como registro do Guinness, e não como dado oficial.
É importante notar que o objetivo não era chegar ao espaço. Os lançamentos verticais eram testes do comportamento do míssil, e a trajetória era suborbital: o foguete subia, atravessava a região acima dos 100 quilômetros e voltava a cair. A definição da linha de Kármán como fronteira do espaço é posterior, e por isso o título de primeiro objeto no espaço é atribuído em retrospecto.
Existe ainda uma questão de definição. A NASA, em seu relato sobre o programa Bumper, descreve o voo de 24 de fevereiro de 1949, em que um foguete V-2 levou um WAC Corporal a 244 milhas, como o primeiro objeto a entrar no espaço extraterrestre. As duas afirmações dependem do critério usado, e este texto se atém ao que o museu diz sobre os voos alemães de teste.
Uso na guerra e custo humano
Apesar da sofisticação técnica, o V-2 teve, segundo o museu, pouco efeito sobre o rumo da guerra. Foi empregado em combate a partir de setembro de 1944. O museu informa que os dois primeiros lançamentos operacionais, em 7 de setembro, tiveram Paris como alvo, e que em 8 de setembro houve um ataque bem-sucedido em Paris, às 8h30, e outro à noite em Chiswick, em Londres. O último V-2 disparado em combate saiu em 29 de março de 1945.
As estimativas do museu falam em entre 3.200 e 3.600 mísseis lançados contra alvos aliados, dos quais 1.115 atingiram o Reino Unido e 1.775 alcançaram alvos no continente, com destaque para Antuérpia, que recebeu 1.610. Os mortos por ataques diretos somam entre 5.000 e 5.500, conforme o texto consultado.
A produção teve um custo ainda mais grave. Depois do bombardeio britânico de Peenemünde, em 17 e 18 de agosto de 1943, a fabricação foi transferida para a fábrica subterrânea de Mittelwerk, que usava trabalhadores escravizados do campo de Mittelbau-Dora. O museu registra ao menos 10.000 mortes entre os prisioneiros, e outro artigo do museu cita entre 10.000 e 20.000. A NASA lembra que von Braun declarou em 1969 ter feito cerca de 15 visitas à instalação entre o fim de 1943 e fevereiro de 1945.
Herança: Estados Unidos e União Soviética
Depois da guerra, as duas potências aproveitaram o V-2. Nos Estados Unidos, o campo de provas de White Sands, no Novo México, foi ativado em 9 de julho de 1945. Segundo a NASA, a primeira queima estática ocorreu em 15 de março de 1946 e o primeiro lançamento de um V-2 capturado, em 16 de abril de 1946. Foram 67 lançamentos até 19 de setembro de 1952. Em 24 de outubro de 1946, uma câmera a bordo de um V-2 obteve a primeira fotografia da Terra vista do espaço, a 65 milhas de altitude.
Von Braun e cerca de 120 a 125 colegas foram levados para os Estados Unidos, no âmbito da Operação Paperclip, e trabalharam primeiro em Fort Bliss e em White Sands. Segundo a NASA, ele passou a Redstone Arsenal, em Huntsville, em 1950, e dirigiu o Centro Marshall a partir de 1960. Variantes do V-2 estão na linhagem do Jupiter-C, que lançou o Explorer 1 em 1958, e do foguete que levou Alan Shepard ao primeiro voo suborbital americano, em 1961.
Na União Soviética, o primeiro V-2 montado com peças alemãs foi lançado em 30 de outubro de 1947, em Kapustin Yar, e o primeiro R-1, derivado do V-2, voou com sucesso em 17 de setembro de 1948. Segundo o museu, a China recebeu os primeiros R-1 em 1956 e os R-2 em 1958, e lançou em 5 de novembro de 1960 uma versão modificada do R-2, o Dong Feng 1.
O que os registros não esclarecem
Os relatos consultados divergem sobre vários números: altitude do voo de junho de 1944 (174,6 ou 176 quilômetros), mortes causadas pelos ataques (cerca de 5.000 ou 5.500) e mortes entre trabalhadores forçados (ao menos 10.000 ou até 20.000). Por isso o texto reproduz os intervalos e atribui cada valor a sua fonte. Também não foi possível confirmar em fontes oficiais o número de identificação do voo de junho de 1944, e essa informação foi omitida.
Para aprofundar, vale ler os artigos do museu sobre a campanha do V-2 e sobre o exemplar preservado em Washington, a página da NASA sobre von Braun e o relato do programa Bumper, que mostra como os V-2 capturados serviram de plataforma para experimentos científicos nos Estados Unidos.
Fontes consultadas
- Vengeance Weapon 2: 70th Anniversary of the V-2 Campaign — Smithsonian National Air and Space MuseumComplementar
- V-2 Missile — Smithsonian National Air and Space MuseumComplementar
- 75 Years Ago: First Launch of a Two-Stage Rocket — NASAFonte oficial
- Wernher von Braun — NASAFonte oficial
- Wernher von Braun (1912-1977) — NASA Earth ObservatoryFonte oficial
- The history of the DLR Institute of Space Propulsion — DLRFonte oficial
- First man-made object to enter space — Guinness World RecordsComplementar
Fontes conferidas em 29 de setembro de 2026. Encontrou um erro? Escreva para [email protected] ou consulte a página de correções.
