
Objetivo
Colocar um astronauta americano em órbita, com três revoluções ao redor da Terra, e trazê-lo de volta em segurança para recuperação no Atlântico.
Resultado
Glenn completou três órbitas em 4 horas, 55 minutos e 23 segundos, superou uma falha no controle de atitude pilotando manualmente e foi recuperado pelo contratorpedeiro USS Noa.
Contexto
Quando John Glenn decolou, quase um ano havia se passado desde o voo orbital de Yuri Gagarin, em abril de 1961. Os Estados Unidos já tinham feito um voo suborbital tripulado, o de Alan Shepard, mas ainda não haviam colocado uma pessoa em órbita. A missão Mercury-Atlas 6, com a cápsula batizada de Friendship 7, tinha esse objetivo.
Antes de Glenn, a NASA testou o sistema com um animal. O chimpanzé Enos fez um voo de duas órbitas em 29 de novembro de 1961, a bordo de uma cápsula Mercury sem piloto, lançada por um foguete Atlas. O plano da missão de Glenn era de três órbitas, e não de sete, como às vezes se lê. Segundo o Museu Nacional do Ar e do Espaço, três voltas permitiam um pouso no Atlântico, perto de Cabo Canaveral, sem que a rotação da Terra levasse a cápsula a sobrevoar regiões de difícil recuperação, como a América do Sul.
Atrasos até a decolagem
O lançamento foi adiado várias vezes. Uma tentativa em 27 de janeiro foi interrompida a treze minutos do fim da contagem por causa de nuvens. Depois, a equipe encontrou um vazamento em um anteparo do tanque de combustível, o que exigiu de quatro a seis dias de reparos. Tentativas em 13, 14, 15 e 16 de fevereiro foram canceladas por mau tempo, segundo a NASA.
A decolagem ocorreu em 20 de fevereiro de 1962, às 9h47 no horário do leste dos Estados Unidos, do Complexo de Lançamento 14. A fase propulsada durou 5 minutos e 1 segundo, e a cápsula entrou em órbita com o astronauta a bordo.
As três órbitas
A órbita teve altitude entre cerca de 100 e 162,2 milhas terrestres, com período de 88 minutos e 29 segundos e velocidade de cerca de 17.544 milhas por hora. A carga máxima sobre o piloto foi de 7,7 g. O tempo de ausência de peso foi de 4 horas, 48 minutos e 27 segundos, e a distância total percorrida foi de cerca de 75.679 milhas terrestres, de acordo com a NASA. O catálogo NSSDC apresenta valores equivalentes em quilômetros, como mais de 121.000 km de percurso.
Glenn viu o primeiro pôr do sol em órbita sobre o oceano Índico e o nascer do sol sobre o Pacífico. Também observou as partículas brilhantes que passaram a ser chamadas de vaga-lumes, que a NASA descreve como partículas de gelo iluminadas pelo Sol e viajando junto com a espaçonave.
Os problemas durante o voo
O primeiro problema apareceu no fim da primeira órbita. Um pequeno jato de controle de guinada, usado para manter a orientação da nave, parece ter entupido. Com isso, Glenn precisou passar do controle automático para o modo manual, conhecido como fly-by-wire elétrico, e conduziu a cápsula com as próprias mãos em parte do voo.
O segundo problema envolveu o escudo térmico, peça essencial para proteger a cápsula na reentrada. Um interruptor com defeito no circuito do escudo indicou que a trava que o mantinha no lugar havia se soltado antes da hora. A NASA explica que o sinal era falso, mas naquele momento a equipe não podia ter certeza. Por precaução, foi decidido não descartar o pacote de retrofoguetes depois do acionamento, na expectativa de que as correias ajudassem a segurar o escudo, caso ele estivesse de fato solto.
De acordo com a NASA, Glenn foi orientado a manter o interruptor da bolsa de pouso na posição desligada, mas não recebeu, naquele momento, uma explicação completa sobre a preocupação dos controladores.
Reentrada e recuperação
Na reentrada, o blecaute de rádio durou 4 minutos e 20 segundos, período em que os gases ionizados envolvem a cápsula e bloqueiam as comunicações. Glenn descreveu o momento como uma bola de fogo do lado de fora, de acordo com o relato da NASA. O escudo térmico resistiu.
A cápsula pousou no oceano Atlântico às 14h43 no horário do leste dos EUA. A duração total do voo foi de 4 horas, 55 minutos e 23 segundos. O contratorpedeiro USS Noa recuperou a espaçonave cerca de 21 minutos depois do pouso. A localização exata varia entre as fontes: a página da missão fala em cerca de 800 milhas a sudeste das Bermudas, o catálogo NSSDC cita cerca de 1.300 km a sudeste das Bermudas, e o artigo comemorativo da NASA menciona uma região perto de Grand Turk, a cerca de 800 milhas de Cabo Canaveral.
Repercussão e legado
O retorno de Glenn foi celebrado como uma vitória nacional. Em 23 de fevereiro, o presidente John Kennedy entregou a ele a Medalha de Serviço Distinto da NASA. Em 26 de fevereiro, o astronauta discursou em sessão conjunta do Congresso, e em 1º de março houve um desfile em Nova York que, segundo a NASA, reuniu cerca de quatro milhões de pessoas. A cápsula percorreu mais de vinte países em uma turnê entre abril e agosto de 1962 e foi entregue ao Smithsonian em 23 de fevereiro de 1963. Hoje está no Centro Udvar-Hazy, na Virgínia.
O voo não foi o primeiro de uma pessoa em órbita: Gagarin havia orbitado em abril de 1961, e Gherman Titov passou depois um dia inteiro no espaço, como lembra o Museu Nacional do Ar e do Espaço. Ainda assim, a missão mostrou que os Estados Unidos dominavam o voo orbital tripulado e serviu de base para os voos seguintes do programa.
Detalhes que causam confusão
Um equívoco comum, difundido por filmes, é o de que a missão previa sete órbitas. Segundo o Museu Nacional do Ar e do Espaço, a frase transmitida pelo controle da missão, algo como um sinal verde para pelo menos sete órbitas, indicava que a espaçonave estava em condições de permanecer em órbita por mais tempo, e era dita em todas as missões orbitais do Mercury.
Outro ponto é o horário do pouso. A página da missão da NASA registra o valor de 14h43 no horário do leste dos EUA, o que fica quase cinco horas depois da decolagem das 9h47, coerente com a duração total informada. Ao consultar textos antigos, vale conferir se o fuso está indicado.
Fontes consultadas
- Mercury-Atlas 6: Friendship 7 — NASAFonte oficial
- 60 Years Ago: John Glenn, the First American to Orbit the Earth aboard Friendship 7 — NASAFonte oficial
- Friendship 7 (Mercury Atlas 6) - Spacecraft — NASA NSSDCAFonte oficial
- The Myth of John Glenn's Seven-Orbit Mission — National Air and Space MuseumComplementar
Fontes conferidas em 29 de setembro de 2026. Encontrou um erro? Escreva para [email protected] ou consulte a página de correções.

